Prof. Dr. Sérgio César da Fonseca (USP)
Prof. Dr. Elmir de Almeida (USP)
Prof. Dr. Felipe Ziotti Narita (USP/Unesp)

12/12/2017 – Jonathan Crary
Em nosso último encontro do ciclo de seminários públicos de 2017 na USP, abordaremos Jonathan Crary – especialmente o conjunto de problemas trabalhado nos livros Techniques of the observer (1992) e Suspensions of perception (1999). Crary configura um importante quadro conceitual, pensando os processos de subjetivação de Foucault em diálogo com o campo do marxismo (especialmente Marx, W. Benjamin e Guy Debord), de modo que oferece uma ampla investigação sobre a gênese da modernidade, no século XIX, acompanhando as formas de descentramento do sujeito clássico e a emergência do observador moderno entrelaçadas às profundas transformações do período. Basicamente, para o autor, o tempo das massas urbanas e dos mecanismos de governo da população é também o momento de modernização da subjetividade.
Diversos problemas, então, são considerados a partir dessa “démarche” fundamental. O conjunto de transformações técnicas do período implica uma nova racioanlidade do mundo da vida, conformando novos tipos de posições do sujeito, de modo que a correspondência entre a produção de saberes sobre os sujeitos e as mudanças socioeconômicas (decorrentes, sobretudo, do arranque industrial nos centros do capitalismo) implicam práticas representacionais relacionadas ao nascimento de uma nova cultura visual articulada pelo espetáculo. A lanterna mágica, o cinema e a fotografia, ao passo que configuram novos campos e lógicas de visualidade (o problema da Anschaulichkeit, da teoria estética de Adorno, parece bastante caro a Crary), também significam uma ampla racionalização das formas de atenção e de percepção na modernidade capitalista. A rigor, as transformações são subjacentes a uma profunda reconfiguração das estruturas sociais, em contextos de disciplinarização das formas de trabalho e de organização dos critérios sociais da atenção no nascimento das sociedades industriais.
Crary desenvolve uma longa jornada teórica e temática, passando pelos ambientes urbanos da modernidade e por seus discursos, do pointillisme de Seurat a uma insólita leitura de Durkheim, da pedagogia de Herbart e dos experimentos fotográficos de Muybridge à Lebensphilosophie de Bergson. Enfim, na conjuntura em que o capital e sua reprodução dissolvem qualquer estabilidade nas formas de vida, o estético, a produção da atenção e os processos sociais são articulados a fim de demonstrar os intrincados nexos sociais que tecem a cultura moderna.

28/11/2017 – Michel Foucault (II)
O seminário do dia 28/11/2017 será dedicado ao livro Sécurité, territoire, population, de Michel Foucault, publicado a partir de lições ministradas pelo autor entre 1977 e 1978. No último seminário, analisando o texto Il faut défendre la société (1976), chegamos a uma caracterização inicial do problema do biopoder e do governo da população a partir da perspectiva genealógica então retomada por Foucault. O texto do presente seminário, de muitos modos, ilustra um aprofundamento e um conjunto importante de deslocamentos teóricos em relação ao livro anterior, explicitando as preocupações de Foucault com a constituição “da nossa modernidade”.
De partida, convém assinalar a retomada do problema do biopoder, a partir do século XVIII, à luz da dispersão de novas tecnologias e dispositivos de governo e segurança, tornando a gestão da população um tema central da presente investigação. Se os dispositivos de segurança e o problema da população estão correlacionados (vide o artigo de Foucault para a revista italiana Aut-Aut em 1978), o passo teórico decisivo nesse sentido é formulado pelo problema do governo – centro das preocupações do autor em Sécurité, territoire, population. Assumindo essa perspectiva, podemos abordar um conjunto de tópicos relacionados à construção do liberalismo clássico (entendido por Foucault como uma nova racionalidade de governo) e de um ângulo de análise do poder deslocado do campo da legitimidade jurídica.
Se a soberania capitaliza um território, circunscrevendo o terreno da legitimidade e do governo, a disciplina constitui uma arquitetura espacial a partir da distribuição hierárquica e funcional de seus elementos, de modo que a segurança organiza (aménager) o meio social em função da seriação de eventos e de sua presumível regularidade. A circulação e o governo da cidade, nesse sentido, correspondem a um conjunto bastante matizado de procedimentos e mediações materiais capazes de tematizar a fome, as crises econômicas, a carestia, a natalidade, as estatísticas criminais, as juntas de higiene, as técnicas penitenciárias, as estratégias de moralização e correção etc., a partir de seus nexos com os dispositivos de biopoder e do horizonte de necessidades do espaço social. A emergência da população, como sujeito político, assinala uma passagem epistemológica fundamental de regimes determinados pelas estruturas de soberania a regimes organizados por técnicas de governo que, no século XVIII, aguçam o tema da soberania e reorientam a arte do governo à luz do nascimento de uma economia política.
Duas dimensões estão implicadas nesse cenário. A constituição do liberalismo clássico, analisada por Foucault como um conjunto de práticas (manière de faire), implica uma nova racionalidade dos mecanismos de governo, na medida em que a otimização da população e dos mecanismos de circulação da cidade tematizam as especificidades da sociedade travejada pela esfera do mercado e pelo problema da autonomização dos circuitos de produção e de troca (temas desdobrados em Naissance de la biopolitique de 1979). Se soberania, disciplina e gestão governamental constituem partes de um mesmo movimento cujo núcleo é a emergência da população como campo de intervenção, o conjunto de instituições, procedimentos, processos e saberes conformadores dos dispositivos de segurança estabelecem maneiras específicas de relações de poder decorrentes de um saber mais amplo sobre a população. Encerraremos esse pequeno ciclo de seminários sobre o Foucault do fim dos anos 1970, portanto, analisando o alcance e os impasses teóricos subjacentes ao tema da governamentalidade (gouvernementalité) que, decorrente das formas de poder pastoral instituídas com a ascensão do cristianismo, foi redimensionado com os deslocamentos do campo da soberania a partir do século XVIII.

14/11/2017 – Michel Foucault (I)
Nosso seminário sobre teoria social iniciará uma discussão (feita em duas partes) sobre Michel Foucault. Para nossos propósitos teóricos, em meio à vasta produção do filósofo/historiador francês, no ciclo de seminários de 2017 decidimos dedicar especial atenção ao Foucault do fim dos anos 1970. Nesse sentido, analisaremos, nesse primeiro momento, o conjunto de problemas ilustrados em Il faut défendre la société de 1976 (Em defesa da sociedade, conforme a tradução brasileira).
No último seminário, debatendo a teoria de James Scott sobre a simplificação institucional do Estado moderno, discutimos a construção do Estado a partir de da institucionalização de uma “legibilidade” do espaço social, conformando “sistemas fechados” de interpretação e intervenção sobre a população e a sociedade. Com Foucault, analisaremos um contraste teórico fundamental em relação à abordagem de Scott: a possibilidade de fundamentar uma análise concreta de relações de poder pensadas para além do modelo jurídico da soberania e da institucionalização estatal. O poder, então, não é entendido como um direito original que pode ser concedido ou retirado (uma matriz de soberania), mas como formações de poder a partir de mecanismos e de relações de sujeição (assujetissement) produzindo sujeitos e subjetividades (vale lembrar, aqui, os estudos de 1972-1975 dedicados à “sociedade punitiva”, ao poder psiquiátrico, a uma história do direito penal, à insólita abordagem de Les anormaux etc.). Trata-se de uma análise sobre as tecnologias de poder em sua multiplicidade e especificidade, ou seja, uma investigação capaz de situá-las no entrecruzamento de práticas e de saberes por meio de uma analítica do poder – um deslocamento da centralização institucional do poder e sua legitimidade, como “efeitos de conjunto”, para uma decomposição de sua capilaridade em técnicas de gestão e intervenção.
A questão de método (ou de tática, conforme o próprio autor sublinha) subjacente a essa “démarche” – a saber, o problema da genealogia desenhado por Foucault, pelo menos, desde a efetiva incorporação do vocabulário nietzschiano em 1971 – implica uma abordagem capaz de, por assim dizer, desubstancializar o entendimento do poder. Em vez de examiná-lo a partir de sua natureza ou de seus fundamentos, Foucault propõe uma materialidade capaz de apreender os poderes a partir de sua incorporação em processos que sujeitam corpos, desejos, comportamentos e sentimentos. Se o debate com Hobbes e a potência da multidão como conformadora de uma vontade única estruturada na soberania é fundamental, o deslocamento sugerido por Foucault é instigante, na medida em que destaca a produtividade dos “corpos periféricos e múltiplos” como constituídos por “efeitos do poder” (retomando, agora em chave analítica, a dinâmica das relações de sujeição).
Duas questões podem ser consideradas à luz das linhas gerais acima esboçadas. A primeira diz respeito às técnicas de sujeição e contenção (contrainte): se a analítica do poder está próxima dos corpos periféricos, as relações de poder não são aplicáveis sobre os indivíduos, mas transitam entre eles. O indivíduo e o processo de individualização são, antes, efeitos das relações de poder. A segunda consideração decorrente do empreendimento metodológico de Foucault diz respeito ao emprego e à manifestação de relações de força, produzindo uma gramática da guerra e do enfrentamento como o “afrontamento belicoso de forças”. Afinal, decompondo as relações de poder em seus “mecanismos infinitesimais”, a autonomização das redes de sujeição implica uma estrutura de operadores e mediações materiais capazes de mobilizar dispositivos (dispositifs) de saber, afastando-se do “homem artificial” do Leviatã, na medida em que Foucault posiciona sua abordagem fora do campo da soberania jurídica da instituição do Estado.
Tematizando o conjunto de dispositivos, técnicas e mediações, essa analítica da materialidade do poder conduzirá nossos seminários a outro conjunto de problemas: a gestão da população e o tema da governamentalidade moderna (temáticas que serão exploradas no próximo encontro). Os seminários são públicos e não há necessidade de inscrição. Todos(as) estão convidados(as)!

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